As lembranças e a esperança de um novo amanhã, ou considerações sobre o último álbum de Sharon Van Etten


Hoje fala-se aqui de Remind Me Tomorrow de Sharon Van Etten, o quinto álbum de estúdio, que sucede a Are We There, de 2014.

Remind Me Tomorrow é um álbum que nos apresenta Sharon Van Etten com um som mais maduro e mais longínquo do folk de que estávamos habituados, cheio de sintetizadores e beats que, a meu ver, lhe ficam muito melhor, e se encaixam muito melhor na voz da americana. 

No geral, o álbum novo de Van Etten mostra-nos uma nova faceta da mulher em que ela se tornou, e parece-me ser até um tanto catártico. 
Mostra-nos, ao longo de todas as musicas, uma mulher segura, apesar das suas naturais inseguranças e medos, uma mulher que aceita o que lhe aconteceu e que seguiu em frente, sem se esquecer do seu passado. 
Remind Me Tomorrow é um álbum que nos tira o chão e que nos alerta sem nos desassossegar demais e que tem aquilo que eu mais gosto: realidade, sempre e em todas as canções.


É inevitável começar por falar na musica que abre o álbum, “Comeback Kid”, que começa com uma bateria impecável que serve, junto com os sintetizadores, como que de uma “cama”, perfeita para a voz de Sharon Van Etten. É uma espécie de ode ao que já se passou, com um sintetizador magico que nos vai guiando, ao lado da voz, ao longo da historia. A parte onde ela grita “… don’t look back , never turn around…” é fenomenal e dá balanço para o auge da musica onde, a mim, já só me apetece dançar.


Segue-se-lhe “Hands”, num tom mais dark, com as distorções das guitarras, que lhe dão um ar um tanto mais grunge, que entra num agradável “confronto” com a voz de Van Etten e me faz ir parar ao universo de Beck. 
As músicas de Remind Me Tomorrow são todas muito bem construídas e tornam-se apetecíveis e muito apetitosas para quem, como eu, gosta de rock.

Remind Me Tomorrow, dizem, é um álbum autobiográfico e de cura. A mim, parece me sempre um renascimento, uma especie de “Fuck It Moment”, onde de tudo de mau fica sempre para traz quando toca. Sharon Van Etten sai, definitivamente, do universo meio tímido da musica folk e fica aqui grandiosa e muito poderosa neste indie rock com que se nos apresenta agora. 


Uma das minhas musicas preferidas do álbum é “I Told You Everything”, pela franqueza da letra e pela forma doce e forte como Sharon Van Etten a canta. Melodicamente é uma musica canção muito bonita e muito delicada, e, as diferentes camadas que ela tem, vão ganhando dimensão à medida que ela se vai desenvolvendo e vão ganhando tanta mais força quantas mais vezes ela toca.


Falar em Remind Me Tomorrow é falar obrigatoriamente também em “Jupiter 4” (que para mim é um dos momentos mais ricos e um dos melhores exemplos do que de novo este álbum nos traz) e em “Seventeen”, uma das musicas mais emblemáticas e mais fabulosas do álbum. Van Etten traz-nos tudo o que já tinha nos alguns anteriores de uma forma nova e cheia de subtilezas rock. 


Outro grande momento aparece-nos em “Malibu”, uma canção onde a a melodia e a forma como a voz aparece aqui roça o transcendente e o mágico. “Malibu” é, para mim, uma das melhores musicas do álbum, e das obrigatórias no que a mim me diz respeito, quer pela letra que é extraordinária como pela singeleza da melodia.

Remind Me Tomorrow é o grande regresso de uma grande voz, de quem eu já tinha saudades. É o regresso do novo, a confirmação que a arte se inspira na realidade e em mais nada, e, a confirmação de como é possível fazer coisas tão bonitas a partir de coisas feias que nos acontecem a todos.

Sharon Van Etten é uma das confirmações do cartaz do NOS Alive deste ano, mas nós continuamos a espera que ela venha em nome próprio, que ia ser tão melhor.


"... I walked in the door, The Black Crowes playing as you cleaned the floor, I thought I couldn't love him any more..." em Malibu.

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