O "Território Desconhecido" dos Trêsporcento, numa abordagem a quatro mãos

Hoje falamos sobre o mais recente disco da outra banda "residente" aqui do estaminé: os Trêsporcento.

Já sabem desde há muito o que penso sobre estes rapazes. Não é surpresa para ninguém que são uma das minhas bandas nacionais de eleição, que tenho com algumas das suas músicas uma ligação muito especial, e que os seus concertos são sempre momentos incríveis. Ah, e que na minha opinião, continuam a ser um dos grupos mais «underrated» do panorama nacional.
Para contra-balançar, pedi à Chavininha para me dar uma ajuda, à semelhança do que fizemos com o texto sobre o disco dos Budda Power Blues & Maria João.

E eu, que sou uma Chavininha "opinadeira", disse que sim, sempre pronta para dar o meu parecer sobre as coisas. Vamos lá ao que interessa então.

"Território Desconhecido" conta com algumas novidades sonoras, muito por culpa da produção de Flak. O som «habitual» continua lá, nos acordes, nas guitarras, na voz característica, mas ao mesmo tempo, soa mais rico, mais denso, mais intenso.

Concordo com a Concertina quando ela diz que o álbum vem cheio de influências novas. Sou sempre apologista de que "parar é morrer", o que, aqui, serve para ressalvar que é sempre bom saber que não houve tendência a ficar confortável, e que o novo é sempre um lugar mais interessante. 

Ao escrever estas linhas tentei escolher os melhores temas, mas a verdade é que não consegui. Todos têm qualquer coisa de interessante, de surpreendente. Tantas audições depois, percebi que cada canção mexe com os meus sentidos de maneira diferente.


"O Sonho", por exemplo, tem um solo de guitarra final incrível que nos põe os ouvidos em sentido, e a ideia de um refrão instrumental agradou-me bastante.
Sinto-a como se fosse um elo de ligação entre os discos anteriores e o novo caminho.
As guitarras mantêm-se, mas agora há teclados. Como os de "Um Grande Passo". Hoje é uma das minhas preferidas, mas no início custou a assimilar, tal a diferença que as teclas e a flauta transversal trouxeram ao tema.


Já "Tempos Modernos" colou no instante em que a ouvi. Os acordes, a letra, a mensagem. E o refrão de estádio. Facilmente nos imaginamos a cantar a plenos pulmões - e o melhor de tudo, é que está longe de ser um tema «comercial». Tal como "Stoner", que nas primeiras vezes me parecia um peixe fora de água, completamente diferente do que os moços nos habituaram ao longo dos anos. É, para mim, o exemplo maior da experiência com o Flak. Ah, e não poderia deixar de mencionar as «back vocals». Roubam-me sempre um sorriso, sobretudo desde que os vi em palco em modo «meninos de coro»...


Os acordes mais ligeiros de "Cabeça Ocupada" levam-me a pensar que se os Trêsporcento fossem mais do pop-rock do que do indie rock, era assim que os seus temas soariam. Ainda bem que não são, mas a versatilidade também faz parte.
"Papa Figos" assume-se como outra das minhas favoritas e não tem nada a ver com o nome. São os acordes, a bateria, o ritmo, a melodia. A linha de baixo, a linha de guitarra no fundo, o pedaço instrumental no fim absolutamente arrebatador. Mais uma para juntar ao lote das que me prende do primeiro ao último acorde.


A surpresa chega com "O Poder do Espanto", aquela canção que não entra logo, mas que, a cada escuta, se faz descobrir. O lado calmo e sereno engana. Tem uma força brutal, uma linha de baixo incrível que, acompanhada pela bateria, dá lugar a uma explosão sonora vibrante.


"A Ciência" é o pedaço rock que faltava para que o disco soasse completo. Os acordes «Trêsporcento» complementam-se na perfeição com a electricidade gerada pelo refrão. O contraste surge com a faixa escondida "Amanhã", voz envolvente e guitarra acompanhados de «back vocals» dos restantes elementos. Um momento acústico absoluto. 


Tal como na restante discografia, a voz continua a ser um instrumento precioso, os textos continuam poéticos, certeiros e recheados de subtilezas. E mesmo que por vezes pareça mais serena, o desassossego persiste. Os acordes estão mais maduros, e a introdução de novos elementos «apenas» tornou as canções mais ricas e mais interessantes. Sem dúvida alguma, graças ao toque do Flak, que acredito, revolucionou por inteiro as versões iniciais.

Eu, destaques não vou fazer. Até porque a Concertina já os fez por mim, e não me agrada nada estar a repetir o que ela já disse.
É publico que tenho com a música que se faz por cá, alguma (pouca?) intimidade, sendo que os Trêsporcento, não sendo uma excepção, até acabam por escapar a esta regra. Não sou uma «expert» nos álbuns anteriores, mas já os ouvi muitas vezes, tendo a certeza que o caminho se faz com curvas e contra-curvas, desde que nunca se pare de fazer melhor e mais. 
Sim, "Território Desconhecido" é "o" mais e melhor.
Pelo menos para mim, é o "diferente" do que se costuma fazer. E isso, aqui no meu eco-sistema, é muito bom.
Fico, por isso, feliz em saber que, neste caso, a banda está a evoluir, e confesso que gostei mais das músicas quando as ouvi no Estúdio Time Out, porque me soaram a alguma coisa mais orgânica, mais deles, não sei explicar bem... (ainda que na maior parte das músicas o som não estivesse nada famoso...)
Mais do que qualquer coisa, o que sempre me marcou foi o som deles. E, neste álbum novo, também é isso que (me) faz a diferença.

Os Trêsporcento saíram da sua zona de conforto e encontraram um som que lhes assenta que nem uma luva. 
"Território Desconhecido" é seguramente o disco mais experimental, mas é também o mais interessante, e o mais completo. Para mim, é também o seu melhor disco. E eu só espero que eles tenham finalmente a atenção que merecem. 

nota final: se os apanharem por aí em concerto, não os percam. vão ver que não se arrependem. palavra de Concertina.

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