O novo reflexo dos Arcade Fire

Achei que isto ia ser fácil, mas não. Um dos discos mais esperados do ano, "Reflektor" dos Arcade Fire, está finalmente aí. E o que posso desde já dizer é que não soa a nada que eles tenham feito anteriormente. E isso deixou-me baralhada. Mas por pouco tempo, porque já esperava algo distinto, assim que se soube da "parceria" com James Murphy (ex-LCD Soundstystem). E se para os fãs mais "conservadores" deve ser chato e estranho, eu confesso que está a conquistar-me rapidamente.

"Reflektor" é "obrigatoriamente" um disco mais dançável, menos rock, menos indie (ou se calhar, nem por isso), com uma sonoridade mais complexa. Que nos choca, que nos tira do "marrasmo", que os reinventa, que os moderniza. Sim, que isso às vezes também é preciso.





Há muito pouco do tradicional som dos Arcade Fire. E há muito de David Bowie e de LCD Soundsystem. E com este disco, percebe-se que as duas sonoridades não são incompatíveis. Antes, fazem de "Reflektor" um álbum único. São dois discos, é certo, mas complementam-se ao jeito do yin e do yang. Duas faces da mesma moeda, o lado bom e o menos bom que há em todos nós.

Não o acho de escuta fácil, pode até ser um daqueles registos que ou se ama ou se odeia - um bocadinho como o é "Random Access Memories" dos Daft Punk - mas é viciante. E é épico, denso, intenso. Um olhar contínuo sobre tentações e distracções que nos separam do nosso melhor "EU", o céu e o inferno, o amor, a morte, as trevas, as memórias.

"Reflektor", o tema título, é enorme (em todos os sentidos), com ritmos diversos e variados que de uma forma estranha se complementam e criam harmonia. E depois, há a voz cristalina de Régine Chassagne que soa como um anjo neste universo assombrado.

"We Exist" transporta-nos diretamente para "Billie Jean" de Michael Jackson - a sério, vão lá ouvir com atenção, se faz favor e digam-me lá que as (fabulosas) linhas de baixo não são (quase) iguais...




A viagem pelo mundos dos vivos e dos mortos continua com "Flashbulb Eyes", que me faz logo lembrar a confusão do purgatório. "Here comes the night time" soa tanto a David Bowie e ao seu "sound & vision"... mas é impressão minha ou há também qualquer coisa de Abba lá pelo meio?

"Normal Person", oferece-nos uma linha de guitarra do outro mundo, "You Already Know" é um regresso feliz a "The Suburbs", "Joan Of Arc" é desconforto, é luta, é revolta e o encerramento perfeito da primeira parte.

A marcar o passo para o "lado b", chega-nos uma versão mais dark de "Here Comes The Night Time" - mais suave, mais calma, menos terrena, quase como uma voz interior. Para depois dar-se o devido destaque ao romance entre Orfeu e Eurídice. "Awful Sound (Oh Eurydice)" tem claras influências da viagem ao Tahiti. Tambores, baixo, e violinos tão ténues e suaves, a dar o toque romântico. Segue-se "It's Never Over (Oh Orpheus)", um dos temas mais fortes do disco, um ritmo fantástico, guitarras mais acentuadas.




Depois da sensualidade de "Porno", chega-nos a beleza gigante de "Afterlife" - aquele que será o tema mais "Arcade Fire" a ganhar tanto, mas tanto com o toque de James Murphy... E o fim da viagem com a electrónica suave "Supersymmetry", em jeito de descompressão.

"Reflektor" é provocador, na mesma proporção em que é brilhante. E felizmente para o mundo da música, e para nós que a vivemos intensamente, os Arcade Fire souberam reinventar-se, ficando a garantia de que vão seguramente continuar a ser uma das melhores bandas do nosso tempo.


«do you like rock n' roll music? cause i don't know if i do»

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