Sonhos (mais do que) cor de rosa, ao som de Cameron Avery

Hoje é dia de falar em Ripe Dreams, Pipe Dreams, o álbum de Cameron Avery, espero eu que o primeiro de muitos. 
Cameron Avery é australiano e é mais conhecido por ser o baixista de uma banda que tem toda uma historia já associada a eles, os Tame Impala (de quem eu sou assumidamente fã.), e por também ter pertencido aos Pond.

Em Ripe Dreams, Pipe Dreams, Cameron Avery anda longe dos sons a que o podíamos imediatamente associar quando sabemos o seu background: leva-nos a uma espécie de regresso ao passado, às músicas mais puras e sem distorções. Afinal de contas, o álbum foi inspirado em Elvis Presley, Frank Sinatra ou Etta James, por exemplo. (Se bem que eu acho que lhe podemos ver outras influências como a de Leonard Cohen ou mesmo Father John Misty no jeito de nos cantar as suas estórias.)



Em Ripe Dreams, Pipe Dreams, para além do papel crucial da voz de Cameron Avery (que é um doce para os meus ouvidos), as letras têm um papel muito importante, porque, de facto, como a melodia vem despida de quaisquer artefactos, acabamos por lhes prestar ainda mais atenção. Não é possível não ficar agarrada à voz de Cameron, uma voz tão magnética que me faz querer ouvir tudo do inicio ao fim.




O álbum começa com "A Time And Place", com uma entrada cáustica, que parece que nos faz entrar num filme. A orquestra dá-lhe uma nova dimensão, mas a ideia aqui é que as músicas sejam bonitas e muito melodiosas e isso, por si só, é maravilhoso. Isso e todo o tal sentido cinematográfico do álbum (como podemos comprovar em "The Cry Of Captain Hollywood", por exemplo.). Cameron tem o dom de nos fazer sonhar com músicas simples e despojadas e isso é o mais maravilhoso deste álbum para mim.


Um dos momentos mais altos de Ripe Dreams, Pipe Dreams é, sem sombra de dúvida, "Dance With Me", que tem qualquer coisa que me faz sempre lembrar Leonard Cohen. A densidade da voz de Cameron e da música são divinas. Tudo aqui aparece despido de artifícios, o que torna a canção ainda mais bonita. O solo é maravilhoso e despretensioso, como todo o álbum. A voz de Cameron tem qualquer coisa que me faz lembrar Michael Hutchence dos INXS.




Parece-me injusto referenciar um ou outro momento do álbum, porque todo ele é maravilhoso. "C’est Toi (Extended)" com a forma urgente como começa a aparecer a voz de Cameron é uma verdadeira canção de amor lamechas e onde lhe encontro qualquer coisa de “I Love You Honeybear” de Father John Misty,  e "Disposable", com a sua letra maravilhosa, aparece mais uma vez despida de artifícios. O que ele tiver que fazer e dizer vai ser sempre sem artifícios, o que faz com que tudo isto soe a real. Alias, o que torna estes temas actuais são as letras: autênticos poemas de modernidade em contraste com a forma mais old school de apresentar as melodias.


"Do You Know Me By Heart" tem uma entrada maravilhosa que me lembra Woodkid. A voz de Cameron é um tanto camaleónica, como podemos comprovar ao longo do álbum,  mas é muito maravilhosa. 

Gosto que as canções sejam dramaticamente despidas. Especialmente esta. "Do You Know Me By Heart" podia ser uma música de um filme do James Bond.

"Wasted on Fidelity" é mais folky, mas sempre melancólica q.b., como todo o álbum, se formos bem a ver. O que torna a musica ainda mais bonita é a presença da orquestra, que tem, em todo o álbum, um papel absolutamente primordial.




O tema mais dissonante do álbum, mas que ainda assim lhe fez todo o sentido quando o analisamos como um todo é "Watch Me Take It Away", um momento magico do mais perfeito rock n’ roll: sexy, ritmado, sedutor e a quebrar regras.


Ripe Dreams, Pipe Dreams é, como o próprio nome indica, um álbum de sonho: de sonhos perdidos e de sonhos encontrados, de letras reais e de situações reais. 
Para mim Cameron Avery é uma pérola neste mundo de coisas mais fabricadas em que vivemos. 
Ripe Dreams, Pipe Dreams é um exercício de busca pelo simples e pelo belo num mundo que cada vez se importa menos com isso, e é bonito demais para ser ignorado.


"... These lips ain't just for talking and these boots ain't just for walking, won't you dance with me? Sure I'm a lonely fool, and I ain't that cool, but I'll walk you through it, dance with me..." em Dance With Me.

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