LCD Soundsystem, "American Dream": uma análise (totalmente) sentimental

Sabe, quem me conhece, que eu tenho uma relação muito especial com os LCD Soundsystem, e com James Murphy em particular. 
Há tanto que eu podia dizer só sobre isto que decidi fazer só uma analise à luz dos meus sentimentos, nada racional. Porque eu não tenho esse distanciamento e muito menos me apetece, verdade seja dita. Aqui analisa-se o álbum à luz das (minhas) emoções.


Às vezes, até quase que acredito que a diferença entre uma parte da minha história e a dos LCD Soundsystem está simbióticamente (ou se calhar simbolicamente?) ligada, havendo entre as duas apenas um delay de alguns, poucos meses. Portanto, falar sobre eles é falar sobre mim, e sobre as minhas coisas, o que se torna extremamente difícil de fazer de forma descomplicada, mesmo quando as pessoas me conhecem mesmo bem.


Falar de American Dream, o último dos LCD Soundsystem é quase que uma catarse pessoal, e a minha opinião é a de alguém que, basicamente, quase que se está a analisar a si mesma, daí que, a única forma possível de eu fazer isto é pôr o álbum a tocar e deixar que os pensamentos passem para o papel.

O álbum chega depois de um hiato de 6 anos, no primeiro dia de Setembro, e ficou instalado nos meus sentidos, como se estava à espera, e sem qualquer tipo de dúvida. 

A consistência dos LCD Soundsystem é cada vez maior e, James Murphy é mais do que um maestro que rege isto tudo de uma forma mágica, como que a guiar-me numa viagem de autoconhecimento musical: os beats no sítio certo, as linhas de baixo a marcarem-me o pulso, as teclas e a bateria ali, tão essenciais como pulmões e Murphy a tomar conta dos meus sentidos e das minhas emoções todas.


Na coluna, começa a tocar “Oh Baby”, que fala do fim de um relacionamento amoroso. Que fala especialmente de desilusão. (De dizer que, American Dream, todo o álbum, ironicamente, fala de perdas… de todas as espécies de perdas. De dizer que os LCD Soundsystem me acompanharam sempre nas minhas. Em todas.)


Eu deixo-me enterrar em “Oh Baby”, até ao “shhh” final que marca o breve silêncio que conduz a “Other Voices”, aquela linha de baixo de Al Doyle, a bateria de Pat Mahoney, às teclas de Nancy Wang e me faz sair do estado sempre melancólico causado pela desilusão da voz de Murphy na primeira música do álbum.



“Other Voices” traz os LCD Soundsystem de “Losing My Edge” e que me faz querer barafustar também. Barafustar com as coisas da vida com as quais eu não concordo e que não posso mudar. Barafustar mais do que o Mutley dos desenhos animados, enquanto os sons de "American Dream" entram por mim a dentro e me ajudam a acalmar de alguma forma. Pelo menos até começar “I Used To”, mais calma no som, mas, para mim, mais urgente no conteúdo que me traz. Vejo-lhe tanto de Murphy como de David Bowie.

Como eu disse uma vez, numa conversa com alguém de quem gosto muito, eu não acredito em Deus por si só. Acredito em muitas coisas, (se calhar todas tiradas de diferentes religiões e credos, who cares?) MAS, se tivesse que ter um só Deus seria claramente a música. Especialmente David Bowie, o seu poder de inventar e se reinventar, sempre com uma classe inexplicável e que foi o responsável pela reunião dos LCD Soundsystem, segundo se soube há uns tempos.


“I Used To” marca-me pelo lamento, pela parte meio dormente onde James Murphy diz que ainda tenta acordar. A verdade é que, às vezes, tentamos todos acordar de pesadelos em que nos vemos retidos. Acordar da dormência das vidas de todos os dias. Acordar. Daí que, para mim, tenha toda a lógica do mundo que, a seguir venha “Change Yr Mind”.



Ora bem, a verdade é que o meu 2017 está a ser um ano mágico e tal, mas a verdade é que também não começou assim de uma forma muito bonita e simpática. Começou para mim como “Change Yr Mind”. Começou com baterias à distância, com sininhos a tocar, despertadores perdidos e horas de sono a menos, que, como se sabe, não dão saúdinha a ninguém, Até as ideias mudarem e sair tudo do sitio onde estava. Mudar tudo… até chegar à que eu acho uma das melhores músicas do álbum “How Do You Sleep?”.



Eu acho que, à medida que American Dream vai tocando, tudo vai ficando mais denso, mais imediato e mais intenso. Ou, se calhar as minhas emoções começam a aflorar ainda mais, e tudo o que estava “arrumado” numa gaveta bem lá no fundo, começa a vir ao de cima.



“How Do You Sleep?” tem uma entrada de sonho, com tambores, harpas e com a voz de James Murphy a surgir como um “grito” quase. Aquilo que ele nos diz só pode entrar por nós adentro como que vindo de um sonho, uma voz da consciência a ditar frases com todo o sentido do mundo. 

Mais uma perda, mais uma desilusão, mais um sonho desfeito. 
Quando entram os sintetizadores, eles ocupam o lugar principal, como se fossem o bater de um coração, "... I can't hear you anymore...". Um coração que canta todo o mal que lhe fizeram enquanto pulsa “…there’s more for you…”, pondo-nos depois a dançar “… one step foward and six steps back…”, até chegar ao fim.


Acaba da forma como começou: de uma forma onírica. A questão que fica no ar é, como é que alguém dorme tendo feito aquelas coisas todas que James nos contou naquele “sonho”, que quando chega ao fim serve de rampa de lançamento para “Tonite”.



"How Do You Sleep?" é (me) perturbadoramente inquietante. uma espécie de "murro no estômago" que não dá para parar de ouvir.



“Tonite” vem com a vontade de sair do casulo em que nos tinha adormecido antes, vem com aquela vontade de já não querer saber de mais nada. 

Problema: “Tonite” (como anos antes, “You Wanted a Hit” já o tinha feito) serve para nos fazer pensar. E pensar no meio de uma história de amor. Sem nos esquecermos de que o presente é agora e está cheio de coisas menos bem feitas. “Tonite” são os LCD Soundsystem de “You Wanted a Hit” e de “It’s Time to Get Away”, com um upgrade. Mas, ainda assim, são os LCD Soundsystem que me lembram de coisas antigas. Portanto, e antes que fique aqui presa em repeat, deixo-me ir…

A seguir, Murphy resolve chamar a policia. “Call The Police”, que já andávamos a ouvir há uns tempos, tem o poder de me pôr em modo mais suave e mais descomprometida, muito ao jeito do que “All Your Friends” consegue sempre.


“American Dream”, a música que deu nome ao álbum, vem depois disto tudo, muito ao jeito de Oh Baby, como se fosse uma conclusão de um assunto que tinha ficado pendente. Uma daquelas que não queremos ter que tomar, mas que sabemos ser inevitável.



“American Dream” é uma daquelas músicas que não queremos ter que levar a serio, e que aparece quase como que uma passagem obrigatória antes de chegar “Emotional Haircut”, com a bateria de Mahoney a dominar a entrada, o baixo a dizer-nos que não podemos ir embora agora, e com as teclas de Nancy Wang ali a marcar tudo, mas daquela forma típica que parece que ninguém dá mesmo por ela, embora a sua importância seja crucial no meio disto tudo.



Houve uma pessoa que me disse sempre que, quando precisamos de mudar, começa-se pelo cabelo. Diz que faz bem à alma. Até porque, como no cabelo, quando não corre bem podemos esperar que cresça e fazer tudo outra vez. Um corte de cabelo emocional pode ter tantas conotações como isso mesmo: podemos ser diferentes se nos sentimos iguais? Podemos ser diferentes por fora e continuar os mesmos? Na verdade, pode correr mal, mas e se não corre? Quando corre mal, deixa marcas, pois deixa. Mas ao menos ficamos a saber que não queremos mais o cabelo assim. Eu, do alto do meu cor de rosa digo sempre a mesma coisa: assusta, mas quem tem coragem vai e faz. (Falava de cabelo, pois claro.)


O álbum acaba com “Black Screen”. Ou melhor, o álbum “acaba” com “Black Screen”. (Assim com aspas fica melhor.) Densa, poderosa e mágica. Um quadro preto. Uma espécie de cortina densa entre pessoas. Uma história que acaba ao piano, clássico, repetitivo e muito pertinente. Uma obra de arte. É assim que “acaba” American Dream.


Segundo James Murphy, “acaba” porque no disco de vinil já não cabia mais nada. Segundo Murphy, porque também Bowie sabia que todos os álbuns dos LCD Soundsystem têm nove músicas. (... ironia a de o Bowie andar sempre nesta historia…)


Só que American Dream, não acaba assim. No dia anterior ao lançamento do álbum, os LCD Soundsystem ofereceram-nos “Pulse”, que, supostamente é a música numero 10 do álbum. 
13 minutos de som que, parece que eram essenciais a American Dream
A mim, os LCD Soundsystem fazem-me sempre falta, mas “Pulse” funciona mais como um organismo autónomo e não como parte do álbum, e, portanto, deixo-a de fora. 
Como eles fizeram com o disco de Vinil. 
Deixo-a como o caminho que ainda falta percorrer destes regressados LCD Soundsystem. “Pulse” é uma espécie de consagração de American Dream, e uma espécie de promessa de que podemos começar sempre tudo outra vez, sem nos esquecermos de quem somos, apesar das desilusões e das perdas, mas sem nunca nos esquecermos delas.


American Dream é isso mesmo: um sonho, uma retrospectiva das melhores coisas que os LCD Soundsystem já nos ensinaram que só eles sabem fazer, da forma como eles sabem dizer e como Murphy o faz sempre, e que já se me tornou essencial. 
E, segundo consta, uma catarse de vez em quando até faz bem, de forma a podermos arrumar a “casa”, fechar gavetas e continuar a andar. Diz que é cíclico e que acontece de 7 em 7 anos. Por mim, está tranquilo desde que seja com eles a tocar. Sempre. Até porque os LCD Soundsystem me fazem sempre parar e pensar e a análise corre sempre melhor quando acompanhada. 


Eu? Espero que eles voltem sempre, porque ainda há muita história pela frente para ser contada. Minha, e deles.

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