Lotação 136: os Trêsporcento ao vivo no Teatro Aberto

Aviso à população: se estão à espera de uma crónica objectiva sobre o concerto de sábado dos Trêsporcento no Teatro Aberto, podem parar já de ler. Primeiro, porque são uma das minhas bandas de eleição dos últimos tempos, sou fã assumida e não consigo ser imparcial. E segundo, porque o que nos interessa neste espaço é escrever sobre o que sentimos (ou não) quando ouvimos uma banda ou assistimos a um concerto.

Passaram-se exactamente 6 meses desde que os vi ao vivo pela primeira vez, e seria de esperar algum distanciamento. Ou então não. Há qualquer coisa de viciante nos seus álbuns e a verdade é que quanto mais ouço os Trêsporcento, mais gosto deles.

Desde o anúncio do "Lotação 136" que andava ansiosa - sobretudo por ter falhado a "Azáfama no Bairro", e quando o dia finalmente chegou, a euforia tomou conta de mim. Expectativas em alta, sem o receio de outros tempos por já os ter visto e saber da sua qualidade em palco, mas com aquele desejo interior de os ver ainda melhores.





E posso dizer que sim, foram melhores. Aliás,  foram extraordinários. Ao longo de duas horas, senti-me não num concerto, mas num encontro descontraído entre amigos - muito por culpa da dimensão da sala, que garantiu à-vontade, cumplicidade e aquele sentido de cozyness para um momento que ficará para sempre gravado na memória de todos os que lá estiveram (e para que conste, em disco também, porque era disso que se tratava).

E esse momento começou a formar-se logo com o tema de abertura "Intro", um instrumental agressivo - mas em bom - riffs de guitarra brilhantes, uma bateria explosiva, capaz de fazer sombra a muita gente que por aí anda. O primeiro arrepio e a confirmação de que a noite seria inesquecível.





A partir daí, um turbilhão de emoções fortes. O crescendo do final de "Pinheiros na Rússia", a melodia contagiante de "Veludo" ou a versão fabulosa de "Grande Mentiroso" dos Capitão Capitão. E "Desgoverno", o meu primeiro momento, em que a voz de Tiago Esteves soa tão honesta e envolvente que arrepia, que sinto o bater do coração mais forte quando canta "faz-me companhia nesta noite de inverno / acalma este desgoverno interno".

E se tinha pensado em me acalmar, desisto quando se dão os primeiros acordes de "Cidade", que desde sempre mexeu comigo. Há canções que nos marcam, que nos fazem sentir arrepios na espinha de cada vez que a ouvimos, que são "amor à primeira escuta", e "Cidade" é assim. A emoção é tanta que quase choro. E nem tenho tempo para descomprimir, porque logo a seguir, os moços começam a tocar "Cascatas", outra das minhas preferidas. E dou por mim a pensar "eles são tão bons ao vivo". A força, a energia, a urgência, e a cumplicidade. Tudo a seu favor para me (nos) levarem ao rubro.

Mesmo quando baixam o ritmo, para dar lugar a uma sequência mais calma. "É tudo tão fácil", "Actor Empenhado" e "Genes", canções envolventes que me obrigam a prestar mais atenção à voz de Tiago e descobrir que é de uma suavidade arrebatadora. E a melhor forma de me recompor do solavanco emocional anterior. 





E ainda bem, porque pude sentir em pleno a explosão em palco com "Se Não Queres Estar Presa" que ganha uma nova dimensão com o recurso aos tambores de Pedro Pedro, a par da bateria sempre presente de António Moura, levando-me finalmente às palmas no instrumental impressionante. Que me fez vibrar com a energia do baixo de Salvador Carvalho em perfeita sintonia com as guitarras de Lourenço Cordeiro e Tiago Esteves (e hoje, ao ouvir a versão em disco, confesso que já não me chega...).

"Dás A Mão E Não Sentes", outras das que não me canso de ouvir, continua a ser uma canção gigante, tal é a força que transmite e faz-me querer ouvir mais. "A Medida Do Tempo" - que bem que soa um bocadinho mais roqueira - tem a dose de ritmo certa para me pôr a bater o pé e "Quero Que Sejas Minha", mais um tema maior destes Trêsporcento, traz de novo aquele sentido de urgência que tanto me faz feliz. Outra vez o bater do coração acelerado ao som do refrão. E que me faz receber em êxtase "Espero", deslumbrante e apaziguadora.




Pausa. Entusiasmo na plateia, emoção no palco, alegria, muitas palmas e assobios. Eles agradecem. "Para Subir Há Ajuda" é a primeira do encore, calma, abre caminho para uma interpretação irrepreensível de "És Mais Sede", e "Elefantes Azuis", aquele que para mim é o momento maior de comunhão com o público. Plateia de pé, palmas entusiastas a acompanhar os acordes e um coro de vozes afinadinhas a entoar o refrão.

Se a noite tivesse terminado ali, eu sairia feliz, mas os rapazes voltam ao palco mais uma vez com "Se Não Queres Estar Presa" e "Intro", a fechar com "chave de ouro" um grande concerto. O agradecimento final é genuíno mas eu sinto que somos nós que temos de lhes dizer "obrigado".

Na sala vermelha do Teatro Aberto, com um alinhamento quase perfeito (quase, porque para ser perfeito tinha de incluir "O Dia Em Que Esses Olhos Brilharam"), fez-se magia por uma noite. E eu estive lá.

nota 1: um agradecimento especial ao Pedro Valente, da Azáfama - Produções Artísticas que me enviou o alinhamento :)

nota 2: o álbum só deverá estar pronto lá mais para o final do ano. Até lá teremos de nos "contentar" com a presença dos Trêsporcento no dia 18 de Julho no Super Bock Super Rock.

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