Disco do Dia: "Assume Form", James Blake

O amor está no ar e salvou James Blake da escuridão eterna. Pode parecer um cliché, mas a julgar pelas letras de "Assume Form", o seu novo disco, e pelas composições musicais, mais luminosas, é bem capaz de ser verdade.
E se dúvidas houvesse, a declaração proferida por Blake quando o álbum saiu, dissipou-as: «I love you and you are the reason this album exists».

Para quem não sabe, Blake encontrou o seu refúgio em Jameela Jamil (a actriz da série "The Good Place") há 4 anos e isso transparece no disco. Reencontrou-se e assumiu uma nova postura perante a vida, com mais energia, esperança, amor, deixando para trás o estereotipo de «sad boy» que originou o desabafo sobre as questões da saúde mental entre os homens.
Aprendeu a não ter medo de falar sobre os seus sentimentos (fossem eles bons ou maus) e isto é claramente todo um outro lado de James Blake - que não conhecíamos mas que sabíamos que existia. Ao quarto disco, o produtor britânico muda de estilo, e ainda bem.

As melodias são mais «bright», as letras mais optimistas - parece estar mais descontraído e despreocupado, concentrando-se (apenas) no seu círculo e no que lhe faz bem - e, parece-me (mais) um passo na direcção certa.


«doesn't it seem much warmer just knowing the sun will be out?»

"Assume Form", o tema título, marca o ponto de viragem. Como um «statement», uma tomada de posição, como se tivesse perdido o medo de assumir quem e como realmente é. Concentro-me de imediato no piano, peça central, que nos guia numa viagem complexa e emocionante, uma melodia que é tudo menos simples mas brilhante.

Mais à frente, "Into The Red" - que se assume como uma ode a Jameela, que o acompanhou nos melhores mas sobretudos nos seus piores momentos, a depressão - é uma declaração de amor, uma forma de (nos) mostrar que encontrou a luz em Jameela. A melodia vai crescendo quase desenfreada, cheia de pormenores e de complexidade, com inúmeros instrumentos a aparecer e, por entre essa parafernália, a voz de Blake, uma constante, sempre tão intensa.


"Barefoot In The Park" é uma das jóias da coroa deste disco. Conta com a participação especial de Rosalía e não tenho muito a dizer sobre a canção. É doce, intensa, com uma harmonia deliciosa, duas vozes que se encontram sem se sobrepor. É uma canção bonita, ponto. E está na minha lista do ano.


Por esta altura, não podemos negar que o som está mais clean, e que lhe sai naturalmente. Exemplo perfeito disso é "can't believe the way we flow". Um tema leve, apaixonado, romântico, como o estado de alma de Blake nos dias de hoje, longe da depressão, da escuridão, da melancolia dos outros 3 discos.


"Don't Miss It" (uma "velha conhecida") é outra das minhas favoritas, uma melodia romântica e bonita, tal como "Lullaby For My Insomniac", o último tema de "Assume Form" e, que aos poucos, tem ganho um lugar especial no meu coração, de tão delicada, envolvente e quente que é.


[Confesso que as canções mais «urbanas» não me encheram as medidas por completo mas assumo que a vibrante "Mile High" tem o seu encanto e foi-me conquistando aos poucos. e "Where's The Catch" com Andre 3000 tem uma linha de piano que me intriga.]

Nos primeiros discos, Blake envolvia-nos em melancolia, tristeza até, um ambiente escuro e sombrio, um tormento onde se sentiam rasgos de esperança, de luz, sem que conseguisse sair do ciclo vicioso.
"Assume Form" é um disco intenso como os anteriores mas é também um raio de luz.
O momento em que chegamos ao fundo do túnel e vemos a luz.
É belo, intenso e sentimental e um dos meus discos do ano.

(Nota: Não esquecer que quer James Blake quer Rosalía vão estar no mesmo dia a tocar no NOS Primavera Sound, no Porto. E espera-se que hajam surpresas, e que seja uma noite muito bonita, como quer Blake quer o Primavera Sound já nos habituaram.)

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