«Concertinices» sobre discos: edição 2025


Fonte: Pinterest

Eis (finalmente) a edição deste ano das «concertinices» sobre discos.

Como vem sendo hábito, uns quantos álbuns de projetos que acompanho ficaram de fora, e acredito que outros tantos passaram-me ao lado. Estes, que destaco hoje, foram pontos de paragem obrigatória, discos que foram ficando, que pediram tempo, silêncio ou volume alto, e que me ajudaram a atravessar o ano.

"Passa Montanhas" - Linda Martini

O sétimo trabalho dos Linda Martini é, como se esperaria, um disco que não pede licença para existir. Carrega peso, fricção e urgência, mas também tem em si uma estranha sensação de clareza no meio do ruído. É música que confronta, que não alivia, mas que acompanha, que se parece com aquele empurrão necessário para atravessar tempos inquietos. "Corações Rápidos", "Faz-se De Luz" e "A Cantiga É" são três que pedem para ser cantadas a plenos pulmões, a ver se o espírito da revolução se entranha (novamente) em nós.


"Tout Peut Durer" - Victor Solf

É o seu primeiro trabalho em francês e, talvez por isso, tudo parece ter sido feito com cuidado e tempo. Cada canção parece respirar antes de avançar, sustentada por uma voz que sabe quando se expor e quando se conter. É um disco sobre o que permanece, mesmo quando tudo à volta muda, e isso sente-se em cada silêncio. Conforta sem prometer respostas, é vulnerável mas não lhe falta o ritmo. "Tout Peut Durer", "Que Le Coeur", "Ce Qui Compte" e "Multiple" são as canções que mais me encheram o coração.


"Inquieta" - Gisela João

É, para mim, uma das vozes mais marcantes do panorama musical. Este álbum vive do sentimento e das palavras, num lugar desconfortável entre querer ficar e precisar de avançar. É um trabalho intenso, cru e profundamente emocional, com Gisela João a cantar como quem não consegue estar sossegada - e ainda bem. Há dor, força e uma verdade que se impõe sem artifícios. Todas as canções têm resistência e liberdade em si, e são para escutar quando nos faltar a vontade.


"Areia Branca" - Afonso Rodrigues

Outra voz que me encanta, esta do Afonso Rodrigues. Sente-se-lhe a emoção na voz, a vulnerabilidade de cantar em português. O resultado é um disco sereno, com uma intimidade muito crua, onde se observa o mundo com delicadeza, deixando espaço para a dúvida, para a memória e para a introspeção. "Já Nem Sei", "Onde Foi", "Quando Eu Voltar", "Um Amor Qualquer" e "A Noite" são canções maiores num disco que não grita mas que fica connosco. 


"People Watching" - Sam Fender

Acompanho o Sam Fender desde o primeiro disco e poucos são os artistas que nos oferecem algo tão humano como este disco. Canta-se sobre pessoas reais, vidas reais, fragilidades partilhadas, e Fender fá-lo com uma empatia que aproxima e com uma honestidade que comove. São canções grandes, mas cheias de sentimento, que tanto abraçam como confrontam quem as ouve. "People Watching", "Arm's Length", "Rein Me In" (sobretudo na versão com Olivia Dean) e "Something Heavy" são, disso, um excelente exemplo.


"Every Dawn’s A Mountain" - Tamino

Mais uma voz que me desarma, e este álbum é absolutamente deslumbrante. Move-se devagar, sem nunca perder intensidade. Parece envolto em sombra e em luz ao mesmo tempo, com a voz incrível de Tamino a guiar-nos por paisagens emocionais densas e cativantes. "Babylon", "Sanctuary", "Raven", "Dissolve" e "Amsterdam" são capítulos essenciais de um disco que nos pede entrega total e atenção plena.


"This Side Of The Island" - Hamilton Leithauser

Ao quinto álbum a solo, sente-se a confiança de quem já percorreu muitos caminhos. O disco soa vivido, confortável na sua própria pele, equilibrando calor, melancolia e uma sensação constante de movimento. Não lhe falta energia e ritmo, verdade e intenção, e, claro, a voz inconfundível de Leithauser, que nos brinda com interpretações expressivas e uma entrega de corpo e alma. "This Side Of The Island" é um trabalho que cresce à medida que se regressa a ele - e que ganha imenso ao vivo - e as suas canções, todas elas, são perfeitas para momentos de descontração.


"Pop Couture" - Youth Sector

O primeiro disco da banda britânica, que é um comentário cáustico ao estado atual das coisas, chega com estrondo. Irónico, enérgico e impaciente, tem ritmo e inteligência em doses iguais. As suas canções divertem, provocam e fazem pensar, ao mesmo tempo que nos impelem a bater o pé e a dançar. "God's Work", "Crime", "Buy For Less", "The Ball", "Primetime" e "Here Comes The Fear" são (apenas) alguns exemplos de um trabalho pulsante e inquieto.


"Labyrinthe" - Feu! Chatterton

O quarto disco dos franceses faz jus ao nome: é denso, teatral e cheio de curvas que nos levam ao rock, à pop e à música eletrónica. "Labyrinthe" convida quem ouve a perder-se nas palavras e nas atmosferas, por entre canções que se constroem em camadas, cheias de emoção e poesia, criando um universo próprio. Destaque para "Allons Voir", "Ce qu'on devient", "Mille Vagues" e "L'Alcazar", que valem bem a escuta.


"Loved" - Parcels

O terceiro disco do coletivo australiano é luminoso, deixando no ar boas vibrações, mas tem em si sombra suficiente para lhe dar profundidade. "LOVED" equilibra groove e introspeção, oferecendo-nos não só momentos de pura leveza como reflexões mais íntimas. As suas canções soam calorosas, humanas e descomprometidas, e têm o dom de deixar qualquer um bem disposto. "Tobeloved", "Ifyoucall", "Safeandsound", "Yougotmefeeling" e "Leaveyourlove" são para ouvir com o volume alto, mas todas elas pedem um sing along sentido.


"Neither Up Nor Down" - Dekker

Entre texturas folk e indie pop, o novo disco de Dekker oferece-nos composições introspetivas e reais, convidando-nos a participar nos seus confrontos silenciosos com a depressão, o isolamento, a fé e o amor. Este trabalho vive da proximidade, e as canções parecem sussurradas, carregadas de vulnerabilidade e de uma calma aparente. "Familiar Beat", "The Dove", "Change The Chord" e "Let's Turn Over The Leaf" têm nota máxima num disco que é ideal para nos fazer companhia quando o mundo pede menos agitação.


"Vertical Life" - Astral Bakers

Estes franceses ganharam um lugar especial desde que os descobri. O novo álbum flutua entre o sonho e a realidade, e traz consigo paisagens suaves e contemplativas, com uma sensação constante de deriva emocional. É calmo e é intenso, é caloroso e é melancólico, é suave e é abrasivo, é frágil e é determinado, revelando um equilíbrio exímio nas suas 11 canções. Destaque maior para "Healing", "Mirror", "Vertical Life" e "Within a Heartbeat", que compõem um leque para escutar sem pressa, deixando que as canções encontrem o seu lugar.


"Eu Vou Morrer De Amor Ou Resistir" - Carminho

Este é um disco intenso, carregado de emoção e entrega. Não se esperaria outra coisa de Carminho, um dos nomes maiores do Fado para mim. Explora-se o amor em todas as suas contradições, com interpretações arrebatadoras que oscilam entre rendição e força, sempre com uma enorme elegância. A sua voz é uma emoção que atravessa gerações, e mantém o fado vivo, atual e necessário para nos arrancar da apatia que teima em nos conquistar. "Balada do país que dói", "Pela minha voz", "Eu vou morrer de amor ou resistir" e "Dia cinzento" são as que têm estado mais presentes nos últimos tempos.


"7305" - Noiserv

Li que «"7305" é uma homenagem ao tempo, à memória e à transformação constante que marca o universo de Noiserv» e não poderia concordar mais. Feito de detalhes pequenos e significativos, soa íntimo e delicado, orgânico e emotivo. Cada canção parece um fragmento de memória, construída com cuidado e silêncio, criando uma atmosfera quase cinematográfica - bem ao jeito do que lhe conhecemos. É um disco que se sente mais do que se explica e os nomes que nele colaboram (Surma, Milhanas, A Garota Não, Tape Junk, Afonso Cabral, We trust, Bia Maria, Best Youth, First Breath After Coma e Selma Uamusse) elevam a intensidade de cada canção. Nota máxima para "20 . 05 . A self-conversation is too loud for an empty room", "20 . 13 . A lonely garden in the middle of a small house", "20 . 16 . A casa das rodas quadradas (feat. Milhanas)", "20 . 20 . Um dia como tantos outros (feat. A Garota Não)" e "20 . 82 . One hundred is much more than ten times ten (feat. Tape Junk)".


"Everybody Scream" - Florence & The Machine

Perdi a conta às vezes que ouvi isto desde que saiu.
É um grito coletivo e extasiante, é excessivo, emocional e sem medo da intensidade. É Florence Welch a entregar-se por completo, transformando vulnerabilidade em força e emoção em catarse. É um trabalho que tem Vida nas suas canções, com tudo o que há de bom e de menos bom, sem medo e sem pudor, e com muito fervor. "Everybody Scream", "One of the Greats", "Sympathy Magic", "Kraken", "Music by Men" e "You Can Have It All" são só algumas das que me deixam mais animada.


"LUX" - Rosalía

Saiu o primeiro single, e as expectativas em alta. Não desiludiu. "LUX" desafia, tira-nos da nossa zona de conforto; brilha pela ousadia, pela identidade forte e pela forma como mistura risco e intuição. "Berghain", "La Perla", "Dios Es Un Stalker", "La Yugular", "La Rumba Del Perdón" e a arrebatadora "Memória" com Carminho são peças fundamentais de um disco que mostra Rosalía a expandir o seu universo sem perder autenticidade.


"There Is Nothing In The Dark That Isn’t There In The Light" - Tom Smith

A fechar o ano, um disco que encontra beleza nos contrastes. O frontman dos Editors - que tem uma das minhas vozes preferidas de sempre - oferece-nos um trabalho introspetivo e honesto, em registo acústico. Arranjos minimalistas e toques cinematográficos criam um universo cativante e íntimo, que nos lembra que, mesmo na sombra, há sempre alguma luz. Tom Smith escreve e canta como quem abraça a complexidade emocional da vida e deixa-nos, ao som das suas canções, um tom de esperança. "Deep Dive", "Life Is For Living", "Lights Of New York City" e "Saturday" são as que mais me aquecem a alma.


O que fica deste ano musical não é apenas a memória destes discos, mas a forma como se entranharam no meu quotidiano. Alguns cresceram com o tempo, outros continuam a revelar novas camadas, e há os que vão ficar ligados a momentos muito específicos. Todos, no entanto, continuam a reaparecer em dias diferentes, oferecendo-me abrigo, uma pausa ou aquele impulso que precisava.

No meio do ruído e da agitação constantes, lembram-me que a música, quando é verdadeira, encontra sempre forma de ficar entre nós - e, muitas vezes, de resistir.

Até para o ano!

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