«Concertinices» Sobre Discos, a edição de 2022 (I)

 
Fonte: Pinterest

Aproveitando as férias e a redução de trabalho, tempo para o primeiro capítulo da edição deste ano das «concertinices sobre discos», com destaque para os primeiros lançamentos do ano. Como sempre, ficou muita coisa conhecida de fora... Já se sabe, por aqui, temos ouvidos seletivos ;)


Ao contrário da Chavininha, confesso que não tenho os britânicos The Wombats no meu radar. Mas o seu último disco, lançado em Janeiro, foi rodando de quando em vez, talvez devido ao estado do mundo. Discos alegres e descomprometidos precisam-se e, em "Fix Yourself, Not The World", estão algumas canções bem catitas para afugentar más vibrações. Confesso que as lentas não me disseram tanto, mas encontro a energia certa em "Flip Me Upside Down", que sabe bem ouvir com o volume no máximo, "If You Ever Leave, I'm Coming With You", qual hino cheio de garra, e "Ready For The High", perfeita para se deixar levar. Todas com muito groove, cortesia das linhas de baixo incríveis, que fazem delas, uma excelente escolha para os fins de tarde de Verão.



É o quarto disco a solo do músico britânico, que desde há muito me encanta. Há qualquer coisa de muito sedutor no trabalho de Miles Kane, e aqui, encarna o seu lado mais «crooner» e «retro», levando-nos numa viagem ao passado, mais concretamente aos anos 60. Liricamente mais introspetivo, refletindo a mudança de Los Angeles para Londres e a procura por um novo caminho, o disco parece também mais polido e, sobretudo, menos urgente, algo que sempre me pareceu uma característica do moço. Se calhar, cresceu, que os anos passam por todos nós, e isso nota-se na música que compõe. O som está mais orquestral, mais cinematográfico, mais «cheio», graças a arranjos muito bem conseguidos. É um disco relativamente suave e muito apetecível, com nota máxima para o delicioso dueto com Corinne Bailey Rae, "Nothing's Ever Gonna Be Good Enough", "Tell Me What You're Feeling", canção de aura retro e com potencial para soar bem intensa ao vivo, e "Caroline", com uma interpretação bem segura de Miles Kane.



Os Band Of Horses não são parte integrante do meu alinhamento habitual, mas dei de ouvidos com o seu mais recente discos há uns meses. E o veredito é bastante positivo. Pode não chegar aos calcanhares dos seus primeiros trabalhos mas é seguramente um disco bastante coeso, enérgico e melódico, e traz consigo a sonoridade característica da banda. É, no geral, agradável ao ouvido, soando honesto e confortável. É um disco que faz sentido, com guitarras reluzentes e aguçadas e interpretações tão sentidas quanto descontraídas. É esperançoso e introspetivo, sinal dos tempos, talvez. sempre com a «emoção à flor da pele». "Warning Signs" é inconformada, "Need To Repair" emana frustração, "Lights" balança a coisa com uma linha de guitarra animada e "You Are Nice To Me traz alguma leveza a todo o ambiente. "Coalinga" é provavelmente a mais surpreendente e envolvente de todas, com o seu crescendo contínuo, com tanto de frescura quanto de aconchego, fechando o disco em alta.

 


Longe do som denso e enérgico dos Band Of Skulls, o projeto "a solo" de Russell Marsden e Emma Richardson que já tem tido destaque por aqui, oferece-nos canções despojadas e ternas. Nelas encontramos uma abordagem pessoal e intimista, emotiva e encantadora, lo-fi e calorosa (culpa dos arranjos de strings, que nos remetem para tempos antigos). É cru e visceral, no sentido em que lhe sentimos o pulso verdadeiro, o amor e a dor, o conforto, a vulnerabilidade e a delicadeza no e do seu trabalho. "Outsider", "Oh Forgiveness" e "Beautiful Love" continuam a destacar-se (a par de "Mama" e "That's What Other People Do") num disco que não fará sentido ouvir sempre, mas que me parece uma excelente companhia para momentos a sós com os nossos pensamentos, em pleno contacto com o nosso íntimo.



O novo do coletivo britânico é também o último com a voz de Isaac Wood. Veremos o que o futuro lhes reserva, mas, para já, aproveitemos este presente, uma montanha russa de emoções, de géneros, de ritmos e arranjos. Sou suspeita porque acho-os irreverentes e colei neles desde que os descobri num qualquer programa da BBC. Cada música e consequentemente cada novo disco é um caleidoscópio musical muito bem feito, cheio de variações e mudanças inesperadas, que mantêm os ouvidos atentos, despertos e entusiasmados. O som é visceral, rápido, honesto e enérgico, mas também etéreo e lento quando tem de ser. Soa sempre tudo «à flor da pele», tanto no instrumental como na performance vocal; há urgência e calma, há desassossego e melancolia. Há também muito de atormentado nas interpretações de Isaac, com todas as suas falhas e virtudes que lhe conferem uma dimensão mais «humana» e eu confesso que vou sentir falta. A gloriosa "Concorde", a intensa "Bread Song", a melodiosa "Good Will Hunting", a sentida "Snow Globes" e a épica "Basketball Shoes" são canções maiores num disco que pode muito bem ser um dos melhores do ano, pelo menos para mim.



Os britânicos regressam com um disco que me soou mais experimental, menos imediato, pelo menos sem aquela mão cheia de singles mais óbvios de outros trabalhos. Mantém-se o registo "desprendido" que lhes assiste (e que se estende também muitas vezes ao vivo, para o bem e para o mal), tal como o talento nas composições e arranjos. Assumo que é um trabalho muito bem feito, preciso e cuidado, com orquestrações ricas e complexas, que nos pedem plena atenção, e ambientes oníricos e imersivos, onde nos perdermos facilmente. Entre texturas mais soturnas e outras mais animadas, tudo soa fluído e descontraído como se fosse assim tão simples criar música. Confesso que, volta e meia, me falta o lado mais orelhudo da coisa para manter o interesse, mas, ainda assim, nota máxima para "U&ME", "Hard Drive Gold", "The Actor", "Get Better" e "Philadelphia".



Os também britânicos White Lies regressaram este ano com as suas canções multidimensionais e envolventes. Tão orelhudas quanto melancólicas, fazem-se de instrumentais cheios e exuberantes, com guitarras e sintetizadores que reluzem canção fora, linhas de baixo encorpadas e contagiantes e uma secção rítmica que nos puxa sempre para a ginga. Mas é a voz distinta e profunda de Harry McVeigh que marca sempre o trabalho da banda, e, para mim, é ela o elemento maior. Chega-nos sempre melódica e quente, criando contrastes perfeitos com as paisagens sonoras com texturas mais eletrónicas. O disco soa-me, no geral, mais leve mas mantém a garra de sempre, e é mais um passo sólido na carreira, com um par de canções como "Breathe", "I Don't Wanna Go To Mars" e "Blue Drift"  que, pelo menos por aqui, vão continuar a fazer parte do alinhamento.



É-me muito difícil não achar graça ao que sai das mãos dos Linda Martini. São, seguramente, das bandas que mais ouço, e sinto-me sempre revigorada como que liberta de quaisquer tensões acumuladas. O novo disco traz um som (ainda) mais sombrio, mais denso e é liricamente aguçado como sempre, marcado pelos acontecimentos dos últimos anos, provavelmente. As melodias surgem intricadas, com arranjos pesados q.b., num disco que é tenso, angustiante, introspetivo. A interpretação de André Henriques é, como sempre, irrepreensível, inconformada como poucas. É seu o foco ao longo do disco, mas surge muitas vezes amparada pela voz de Claudia Guerreiro, que equilibra o ambiente. Instrumentais mais contidos conduzem quase sempre a pedaços mais explosivos, como se assim conseguíssemos exorcizar os males do mundo. O crescendo intenso de "Eu Nem Vi", a ironia e agressividade de "Rádio Comercial", a musicalidade de "Festa da Expiação", a força de "E Não Sobrou Ninguém" e a energia de "Taxonomia" são momentos altos de um disco que tanto nos faz pensar como nos urge a agir. E que é para ouvir com o volume no máximo.



Já o tinha dito quando falei em "Santé", o primeiro single deste novo trabalho. O regresso de Stromae era, há muito, aguardado e não desiludiu. Não lhe falta talento, pertinência e multiculturalidade, algo que torna a sua música extremamente rica. Aqui, o foco é na "atenção" ou falta dela, por entre letras acutilantes e interpretações com tanto de ironia como de humor, que já lhe são características. Musicalmente, pega em sons e ritmos tradicionais (muitos da América do Sul e de África), e dá-lhes uma nova vida. A fusão soa, aos meus ouvidos, exímia, incorporando-se, nas canções, coros, pinceladas eletrónicas, arranjos de orquestra e beats urbanos. "Multitude" faz, de facto, jus ao nome, seja pelos inúmeros ritmos, pelos assuntos abordados, pelas emoções que desperta. Nota máxima para "Santé", "Fils de Joi", "L'enfer", "Mon Amour" (sem Camila Cabello) e "Mauvaise Journée" / "Bonne Journée".



O segundo disco dos britânicos (presença assídua por aqui) traz consigo o som «de estádio» que lhes assenta bem. Henry Camamile e companhia continuam a cimentar o seu caminho de forma segura e enérgica, com canções (quase sempre) roqueiras, melódicas, orelhudas e expansivas que nos deixam bem dispostos e com as vozes afinadinhas. Confesso que o registo mais calmo nem sempre me entusiasma, e, por vezes sinto falta daquela garra e da urgência com que me conquistaram no primeiro disco, mas é sabido que os últimos dois anos condicionaram muita coisa e a música chegou-nos muitas vezes mais introspetiva. Ainda assim, "Hometown", "DNA", "Someone's Daughter Someone's Son" e "Again Again" valem bem a pena ouvir com o volume no máximo para animar o espírito.


[continua...]

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